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quarta-feira, 23 de maio de 2012


A solidariedade no trabalho e nas interações humanas cooperativas: estudo das relações de produção.

Resumo: Analisar o tipo de relação humana que se estabelece em uma sociedade, mais especificamente, no ambiente de trabalho, envolve tanto os aspectos psicossociais quanto os econômico-culturais.

Os impactos sofridos pelos indivíduos nas interações sociais competitivas fazem com que o outro seja visto não como uma potencialidade para si mesmo, mas como uma ameaça às suas pretensões pessoais. Por outro lado, as relações cooperativas permitem, além da aceitação das diferenças e da auto-reflexão, o desenvolvimento de uma cultura mais associativa, portanto, mais solidária.
No primeiro caso, a dominação de um homem pelo outro, reduzindo este a um meio para a consecução dos fins daquele, marca as relações de trabalho. Inversamente, a adoção do trabalho cooperativo é a assunção da igualdade intrínseca entre os homens.

Este artigo pretende, de maneira crítica, abordar as atuais relações de trabalho capitalistas – apontando as suas contradições e limites para a emancipação do homem – e as interações de trabalho cooperativas – indicando as suas potencialidades para a individuação e maior socialização do trabalhador. Para contrastar essas formas, além da revisão teórica, analisaremos o depoimento de um cooperado.

Introdução

Tem-se utilizado a palavra solidariedade, atualmente, indiscriminadamente, seja pelas campanhas publicitárias, para promover um produto ou serviço, seja pelas governamentais, para destacar as ações do Governo Federal, que mobiliza, inconseqüentemente, uma restrita parte da população brasileira para participar de programas notoriamente assistencialistas.
Contagiados e apoiadores de algumas dessas ações estão outros agentes que propalam tal discurso: as instituições privadas. A fim de colocar em evidência a sua marca para os stakeholders[1], abarcar novos consumidores e, conseqüentemente, ampliar o seu market share[2], envolvem-se em causas sociais, tais como campanhas de alfabetização de adultos e crianças, ações contra a fome, entre outras, e vão à mídia divulgar os seus feitos.
A primeira indagação que vem é: será que essas práticas são, de fato, ações solidárias? Se conseguirmos superar essa primeira questão, a seguinte se coloca: é possível a ação solidária de empresas que possuem práticas não solidárias, ou ainda, opressoras, em suas atividades internas? Finalmente, e tanto mais intrigante, vem a dúvida: é possível a convivência entre práxis tão distintas como solidariedade e capitalismo?
Esta última questão evidencia um oxímoro entre duas formas de relacionamento humano: a primeira tem na cooperação um instrumento para a consecução de fins particulares e comuns, sem que haja anulação de um ou de outro; e a outra se vale da competição para se atingir objetivos particulares, sem maiores considerações aos impactos gerados nos diversos agentes envolvidos.  
Logo, as ações nomeadas solidárias, sejam aquelas praticadas pelo Governo Federal sejam as realizadas pelas instituições privadas, parecem seguir essa mesma lógica do sistema capitalista. Ou seja, uma maneira de evidenciar uma imagem construída, não pelas ações a partir da cultura, mas pela manipulação de discurso solidário engajado, fazendo dos movimentos socialmente carentes uma estratégia mercadológica, seja para votos seja para produtos, o que, para Joseph A. Schumpeter, pertence à mesma fôrma.
Outras tantas questões poder-se-iam levantar e tantos outros encaminhamentos poderiam ser formulados. Entretanto, neste artigo, ater-me-ei à observação de o que se vem fazendo nas relações internas de trabalho, a partir de uma discussão mais histórica dessas relações e de suas transformações, procurando explorar um pouco mais a segunda indagação explicitada acima.
Para tanto, iniciarei a discussão resgatando as formas de trabalho artesanais e industriais, destacando as relações entre os trabalhadores, os proprietários dos meios de produção e as máquinas. Farei, ainda, uma discussão com diversos autores que trazem formas opressivas e alternativas de trabalho, ilustrando, esta última, com a prática das cooperativas solidárias, através de depoimentos de um cooperado, e as hipóteses desenvolvidas por Paul Singer, da FEA-USP.
Finalizarei a minha discussão, pretendendo estimular o leitor uma reflexão acerca do que se entende por solidariedade em suas diversas práticas e como se torna difícil aceitar tal definição ao que vem sendo feito no setor, principalmente, privado.
Vale dizer que o artigo aqui apresentado não tem um caráter maniqueísta, muito menos unidimensional. Isso porque as contradições internas analisadas trazem um cenário multifacetado e complexo, não possuindo resposta única, nem mesmo com o auxílio de diversas ferramentas de análise estatística.
 Trabalho, Tipos de Produção e Poder
O trabalho artesanal, da maneira como descreveremos a seguir, surgiu após diversas mudanças, tanto social quanto moral, da definição de trabalho. Se nos voltarmos às definições clássicas do termo, aparecendo após o nascimento da propriedade fixa, o trabalho, ou melhor definido, o labor era uma atividade praticada somente pelos escravos.
Isso porque, segundo Arendt (1981), “os antigos (...) achavam necessário ter escravos em virtude da natureza servil de todas as ocupações que servissem às necessidades da manutenção da vida”. E continua afirmando que “laborar significava ser escravizado pela necessidade, escravidão esta inerente às condições da vida humana”.
Em seguida, Arendt (1981) traz outros argumentos à afirmação dizendo que “é típico de todo labor nada deixar atrás de si: o resultado do seu esforço é consumido quase tão depressa quanto o esforço é despendido”.
Ora, se laborar relaciona-se com as necessidades e consumo imediatos, como o produto final de um processo produtivo poderia gerar lucro na modernidade?
É daí que surge a diferença, explícita em Arendt e implícita em Karl Marx, entre labor e trabalho. Marx entende o trabalho com sendo “o metabolismo do homem com a natureza” em cujo processo, “o material da natureza é adaptado, por uma mudança de forma, às necessidades humanas”. (Arendt, 1981)
Mills (1951), citando Marx, afirma que a essência do ser humano está no seu trabalho, sendo que aquilo que os indivíduos são coincide com o que produzem e com a maneira de produzir.
Apropriando-nos destas definições, podemos iniciar a nossa análise da produção artesanal, que se caracteriza pela produção autônoma do homem, em diversos aspectos: instrumentos de produção, tempo de produção, relações com outros produtores, relação com o produto final da produção, entre outros.
Marx, em Maquinaria e Indústria Moderna, traz a idéia de artesanato como o homem possuindo os meios de produção e sendo a força motriz do processo produtivo. A relação do homem com o instrumento de fabricação era de tal proximidade que o mesmo poderia, caricaturalmente, ser uma extensão dos membros humanos.
Obviamente, analisando o movimento “ludista” de quebra de máquinas pelos proletários, torna-se evidente a separação do homem de seu instrumento de produção quando do surgimento das indústrias modernas, às quais discutirei ao longo deste artigo.
Mills (1951) concorda que o “trabalho do artesão é, portanto, um meio de desenvolver a sua habilidade e, ao mesmo tempo, um meio de desenvolver a si próprio como homem”.
A utilização dos instrumentos de produção para desenvolver a si pelo trabalho realizado vai além de apertos de parafusos, porcas e botões sistemática e ordinariamente cadenciados dos movimentos, que reduz a significação do trabalho “a um sacrifício de tempo, necessário para construir uma vida exterior a ele”. (Mills, 1951)
Diferentemente, o trabalho “do artesão é a base de sua vida; ele não procura no lazer a evasão para um domínio separado do trabalho; traz para seus momentos de descanso os valores e as qualidades desenvolvidos e empregados nas horas de trabalho”. (Mills, 1951)
Podemos aqui aproximar o conceito de lazer de Mills ao de Friedmann (1960):
 “Quem diz lazer, diz, essencialmente, escolha, liberdade. O lazer corresponde às disposições, aos gostos individuais, a um complexo de tendências abrigadas no próprio coração da personalidade”.
 Mas, se, para Mills (1951), até “a personalidade e o caráter do indivíduo se tornam parte do meio de produção”, como trazer, na indústria moderna, o lazer para o trabalho, se possível for, para que esse se torne prazeroso?
Já em relação à liberdade, o trabalhador artesanal é “livre para começar o trabalho de acordo com os seus planos, e durante a atividade há liberdade para modificar sua forma e técnica de criação”. (Mills, 1951)
A indústria moderna expropriou tal liberdade do homem. Além de a maquinaria, segundo Marx (1987) ser “o meio mais potente para prolongar a jornada de trabalho além de todos os limites estabelecidos pela natureza humana”. E continua afirmando que “antes de tudo, o movimento e a atividade do instrumental de trabalho se tornam, com a maquinaria, independentes do trabalhador”.
Adorno e Horkheimer (1969), aludindo à separação do homem de seus instrumentos de produção e ao surgimento da indústria moderna, afirmam que “a divisão do trabalho, em que culmina o processo social de dominação, serve à autoconservação do todo dominado”. E continuam destacando que “dessa maneira, porém o todo enquanto todo, a ativação da razão a ele imanente, converte-se necessariamente na execução do particular”.
Esses autores imediatamente supracitados trazem outra perspectiva às idéias de Marx, porém com duas reflexões muito marcantes. A primeira refere-se ao conceito de divisão de trabalho como uma maneira de fragmentação da força produtiva do indivíduo, que se torna meio para a consecução de objetivos, ou fins, particulares dos detentores dos meios de produção. A segunda, mediada pela primeira, é que, ao o indivíduo perder sua autonomia produtiva, conforme consideramos anteriormente, e passar a pertencer a um fragmento do processo, ele promove uma autoconservação da dominação sobre si e sobre os outros trabalhadores.
Neste ponto, encontramos uma outra característica fundamental do modo capitalista de produção, além da competitividade, que é a existência desigual de poder, distribuído ao longo das atividades produtivas. Marx, classicamente, personifica tal desproporção nos detentores da força de trabalho e nos proprietários dos meios de produção. Ou, mais comumente, os primeiros compõem a classe proletária e os últimos, a burguesia.
Finalmente, para Mills (1951), “o trabalho implica também diferentes tipos de poder sobre as matérias, os instrumentos e as máquinas e, mais importante hoje, sobre as pessoas”.

Trabalho e cooperação

Conforme se viu anteriormente, o homem não só foi expropriado de seus meios de produção, como também do significado de seu trabalho e, finalmente, submetido a condições de não autonomia e de dependência dos proprietários dos meios de produção.
Cabe, nesta etapa, tecer algumas ressalvas. Primeiramente, sabe-se que a passagem da produção artesanal para a industrial não ocorreu de maneira estanque, mas processual, coexistindo, ainda hoje, embora preponderantemente esta última, os dois tipos de modo de produção.
Por outro lado, faz-se necessário esclarecer, para maior abrangência deste artigo e para evitar romantismos, que o modo de produção artesanal trazia também suas contradições internas e que não foram superadas para a sua larga manutenção: pequena capacidade produtiva (em volume), trabalho intenso e desgastante (fisicamente), altos custos de produção, lenta e restrita transferência de conhecimento do mestre-artesão ao aprendiz e centralização de decisão e ação na figura do primeiro.
Entretanto, esse poder nas mãos do mestre-artesão não se compara ao relato de Weil (1941), quando diz que “o operário, embora indispensável para a fabricação, não conta quase nada nessa produção; por isso”, continua, “cada sofrimento físico inutilmente imposto, cada falta de consideração, cada brutalidade, cada humilhação, ainda que leve, parece-lhe um lembrete de que ele não é nada e não está em sua casa”.
Ora, no trabalho artesanal a casa e o local de trabalho fundiam-se. Em Weil (1960), percebe-se que chega a existir um antagonismo entre essas duas esferas. Na fábrica, continua Weil (1960), “nenhuma intimidade liga os operários aos lugares e aos objetos entre os quais a sua vida se esgota, e a fábrica faz deles, e em sua própria terra, estrangeiros ou exilados, desenraizados”.
Claro está que qualquer forma diferente da competição fica excluída das relações de trabalho entre os proletários. Contrariamente, no artesanato, a cooperação interna ao sistema de produção torna-se essencial para o desenvolvimento efetivo do trabalho.
E, por cooperação entendemos, a partir de leituras de Candido (1960), como sendo a obrigação bilateral como “elemento integrante da sociabilidade do grupo, que desta forma adquire consciência de unidade e funcionamento”.[3]  
A cooperação, desta forma, deve prescindir o poder, pois a mútua intervenção individual deve ter um caráter livre e autônomo, não induzindo ao pensamento de ser uma forma de “organização desorganizada”. Ao contrário, nos festejos caipiras[4], “toda esta gente[5] se recruta no bairro, cuja população é levada, deste modo, não apenas a convergir para a capela periodicamente, participando das rezas, dos leilões e das relações correntes, mas, ainda, a assumir encargos no interesse da coletividade dispersa, e unida por semelhantes práticas”. Candido (1960)
Aproximando-se do artesanato, as formas cooperativas de organização buscam resgatar, a partir da coletividade, o significado e a consciência do trabalho, excluídos no modo de produção capitalista.
Surge, portanto, um novo modo de organização do trabalho, que resgata as antigas formas da relação artesanal, e vai além, superando as regressivas interações de poder capitalista e possibilitando a socialização, autonomia e individuação do sujeito: as formas autogeridas de trabalho.

Cultura, Autogestão e Solidariedade


Não posso, antes de dar continuidade a este artigo, deixar de explorar a dificuldade existente na transição, ou ainda transformação, cultural da perspectiva capitalista ou explorador das relações humanas no trabalho e do olhar cooperativo ou socialista das mesmas.         
Isso porque, desde os nossos primeiros contatos sociais, principalmente nas escolas ou ambientes culturais distintos da família, ou mesmo nessa, a lógica da competição e do sucesso permeia as relações sociais da criança. Haja vista, as brincadeiras ou mesmo diversões a que somos expostos: competições em jogos, em tarefas escolares, nos brinquedos eletrônicos, nos grupos de colegas etc.
Uma vez que, segundo Lewin (1978) “as diferenças de conduta, tal como existem hoje entre os homens brancos, pretos ou amarelos, não são inatas”, mas adquiridas, as “divergências da norma social também” as são. Nesse mesmo contexto,
Mead (1935), analisando os comportamentos masculinos e femininos de diferentes povos - os Arapesh, os Mudugumor e os Tchambuli – constata que “se aquelas atitudes temperamentais que tradicionalmente reputamos femininas – tais como passividade, suscetibilidade e disposição de acalentar crianças – podem tão facilmente ser erigidas como padrão masculino numa tribo (...) não nos resta mais a menor base para considerar tais aspectos de comportamento ligados ao sexo”.

Em seguida, a Mead (1935) enfatiza que as diferenças culturais existentes entre indivíduos da mesma e de diferentes culturas “devem ser atribuídas quase inteiramente às diferenças de condicionamento, em particular durante a primeira infância, e a forma deste condicionamento é culturalmente determinada”. Ou seja, o que os autores trazem é que os grupos de referência do indivíduo influenciar-lhe-ão as condutas atuais e futuras, com efeito, enquanto tais constrangimentos se mantiverem inconscientes.
Para ilustrar tal excerto, inicio a análise de uma exposição feita por um cooperado, chamado Assis*, trabalhador de uma cooperativa solidária situada em São Paulo, que passou pela transição entre a empresa capitalista para a autogestão, no momento em que os funcionários a assumiram após diversas contendas com a antiga proprietária.
Inicialmente, afirma Assis, havia ausência de cooperação entre os funcionários, que eram mal tratados pela proprietária, não lhes dando voz nem espaço para atuar. A relação entre eles era competitiva e sem muita aproximação pessoal, a não ser por raras cenas de solidariedade, quando ele, Assis, era alimentado, fora das vistas da proprietária, pela cozinheira, pois não lhe era permitido ter refeições no local de trabalho, a fim de conter despesas.
Analisando esse primeiro depoimento, podemos aproximar a forma individualista e competitiva do ambiente dessa empresa, com o que expusemos acima. Ou seja, o espaço de trabalho era dominado pela proprietária, que não se preocupava com as necessidades do grupo, mas com as suas. A busca pelo lucro fazia com que os funcionários não se integrassem, muito menos se conhecessem, cabendo a eles cumprirem as suas tarefas e, ao final, afastarem-se do local de trabalho.
Dentro desse sistema de crenças, valores e hábitos, onde a cooperação é prescindida, atos como a da cozinheira acentuam a necessidade de ajuda mútua, uma vez que era flagrante o descaso e as péssimas relações no local de trabalho. Entretanto, como que se anulando, os funcionários aceitavam, formalmente, tal situação, a ponto de não as alterar ou mesmo reproduzindo-as, mantendo, assim, os seus empregos e as precárias condições de trabalho assegurados.
Por outro lado, os próprios pensamentos conformistas, tais como, “é assim mesmo...”, “as coisas poderiam ser piores...”, “não há nada para ser feito...”, fecham as lacunas, sendo fácil “compreender a razão pela qual a aceitação geral de um fato ou uma crença poderia constituir a própria causa que impede tal crença ou fato de jamais ser posto em dúvida” (Lewin, 1978).
Portanto, a fim de superar as práticas competitivas e romper as crenças nesse determinismo social, faz-se necessário, entre outras considerações, uma mudança cultural do grupo. Ou seja, para se chegar a relações de trabalho que não sejam mediadas pela anulação de um indivíduo pelo outro, os sujeitos sociais devem adquirir, segundo o mesmo autor, um novo sistema de hábitos, padrões e valores, que se traduz em um processo de reeducação.
Tal abordagem pressupõe a aquisição de valores e conjuntos de fatos que mais tarde irão governar o pensamento e a conduto do indivíduo, segundo Lewin. Contudo, não se pode imaginar que esse novo aprendizado seja algo imediato ou infalível. De certo, há uma constelação de fatores, tanto internos ao indivíduo quanto determinados pelo meio, a ser considerados, para que a mudança cultural se efetive ou não.
O autor cita três dimensões psicológicas do indivíduo que devem ser vistas na tentativa de tal reeducação: “a estrutura cognitiva – maneira de ver o mundo físico e o social abrangendo-lhe todos os fatos, conceitos, crenças e expectativas”; as valências e valores – atrações e aversões a grupos e a padrões grupais; e a ação motora – grau de controle do indivíduo sobre os seus movimentos.
Voltando ao nosso objeto de análise, a maneira como Assis e seus colegas de trabalho viam[6] o mundo do trabalho era de agressividade e não de aprendizado, que é, este, uma das características do artesanato.
Para Assis, os funcionários sentiam-se responsáveis pelas suas obrigações e não pelo negócio como um todo, muito menos pelo bem-estar de seus colegas. Essa despreocupação refletia no trato com o cliente, que era visto como mais um empecilho à condução de suas tarefas diárias.
Com o passar dos dias, a situação da empresa foi tornando-se cada vez mais delicada, tanto financeiramente quanto com os clientes e funcionários, pois a proprietária intensificou as condutas antiéticas no trato com a empresa. Abruptamente, os funcionários, por motivos que não convém citar neste artigo, tiveram que assumir o controle da empresa e autogeri-la, iniciando uma profunda mudança cultural.
Sem experiência e com muito medo do que poderia acontecer em suas vidas, os funcionários, com apoio do movimento estudantil da USP e da incubadora de cooperativas dessa mesma universidade, começaram a aprender como gerir uma empresa e como conviver em um ambiente onde a cooperação seria o arcabouço de todas as futuras relações que se construiriam. Tal ajuda, para Paul Singer, é fundamental no início das atividades de cooperativas isoladas.
Em princípio, relata Assis, as pessoas não davam muita importância às sistemáticas reuniões de grupo que deveriam ser feitas para solução dos problemas diários da empresa, talvez por ainda terem a visão do poder que tudo decide. Com o tempo, entretanto, foram aprendendo, por dinâmicas de grupo, discussão no dia-a-ainda entre os funcionários, apoio e suporte externos, a ter um relacionamento de igualdade e mais humano, segundo Assis. 
Nessa transição, da competição para a cooperação, os funcionários se viam, muitas vezes, em grandes conflitos internos a cada um e ao grupo, desde problemas com a administração da empresa até a superação de dificuldades pessoais em conviver solidariamente. Assis afirma que muitas vezes, não só ele como outros funcionários (aproximadamente 20 pessoas), pensaram em desistir, fechando as portas e buscando o retorno ao sistema de trabalho tradicional capitalista.
Entretanto, perceberam que poderiam superar tais adversidades e construir, de fato, uma cultura solidária. A cooperativa, então, conseguiu transformar as pessoas, tanto dentro quanto fora do ambiente de trabalho. Assis relata que o grupo ajudava-lhe olhar para os seus conteúdos internos, ainda embebidos em competição e destaque dos demais, fato que lhe ajudou interiorizar-se e refletir sobre si mesmo.
Essa auto-reflexão fez com que mudasse a sua conduta tanto na cooperativa como com seus familiares, que passou a tratá-los também de maneira mais humana e com mais igualdade.
Dentre outras mudanças, Assis afirma que a sua forma de se expressar, de se vestir (com mais asseio), de tratar os colegas, de encarar os clientes (não mais como empecilhos, mas como, em muitos casos, colegas ou amigos), de resolver os problemas para o bem do grupo e de confiar nas pessoas, mudou. Ou seja, houve transformação na maneira de pensar e conduzir a sua vida.
Singer (1998), também fazendo referências ao aprendizado, afirma que o desenvolvimento da autogestão “tem de se dar por um processo de livre aprendizado, em que cada autogestor tenha a possibilidade de abandonar a experiência e se inserir em outro modo de produção”, respeitando a individualidade e autonomia de cada um.
Outro paralelo que podemos estabelecer com as formas artesanais de produção é a visão do processo. Assis relata que, diferentemente do modo capitalista existente à época de seu ingresso na empresa, cada funcionário realiza várias funções, em um processo de rotatividade. Ou seja, a pessoa que atende clientes no balcão em um dia, pode ser destacada a cozinhar no posterior e a ficar no caixa em seguida.
Isso, para ele, faz com que cada um possa: desenvolver diferentes habilidades, conforme trouxe Marx, quando alude ao trabalho como uma maneira de desenvolver diferentes aptidões; tornar o dia-a-dia de trabalho dinâmico e sem rotina; entender as dificuldades que possam existir nas diversas tarefas no trabalho; buscar soluções conjuntas aos problemas que surgirem; ser responsável pelo negócio e pela manutenção do grupo como um todo.
Em relação à remuneração[7], Assis afirma que o valor do salário de todos é o mesmo, até o da antiga gerente, agora cooperada, que teve uma redução de mais de 50% quando da transição da empresa capitalista para a cooperativa.
Sua permanência na empresa deveu-se, entre outros motivos, por acreditar que os seus ganhos, pessoais e profissionais, além dos financeiros, seriam maiores do que se voltasse a trabalhar em um ambiente competitivo, pois teria maior participação nas decisões tanto da empresa quanto do modo de execução de suas atividades produtivas. Após alguns meses de trabalho, os cooperados deram-se um reajuste salarial eqüitativo, para todos.

Logo, ocorreu, nesse processo, o rompimento da estrutura formal hierarquizada em prol da adoção de uma estrutura horizontal participativa. 
A partir do depoimento de Assis e pela análise desenvolvida, podemos, portanto, entender que a solidariedade ou a cultura solidária deve permear as relações de trabalho cooperativas, de modo a resgatar a cidadania e a individuação, trazendo um novo sentido ao trabalho[8], que não mais se encontra apenas na tarefa executada, como também nas diferentes experiências individuais dos trabalhadores. Tal cultura, conforme aponta Singer e Lewin, deve ser construída pelo e no grupo, de maneira livre e democrática, respeitando as limitações e contribuições de cada indivíduo.

Considerações Finais

Os desafios encontrados para que haja uma mudança social no modo de encarar a solidariedade e praticá-la são por demais complexos e exigem, daqueles que se dispõem a conviver de maneira cooperada e sem as formas de dominação e controle do indivíduo, um grande esforço de superação das contradições externas e internas a si.
O modo de produção capitalista que, conforme vimos anteriormente, pressupõe a competição e diversas formas de dominação do indivíduo, distancia-se, portanto, daquilo que se depreende por viver solidariamente.
Portanto, pode-se inferir que o que as empresas e o Governo Federal vêm tratando como formas solidárias de interação social não traduz, em seu conteúdo, algo que se possa chamar de solidariedade. Por um lado, porque não é algo construído internamente ao grupo e pelo grupo. Por outro, porque não rompe a lógica competitiva e manipuladora do sistema capitalista. Ainda, não consegue integrar as liberdades de cada agente e estimular a individuação.

Finalmente, parece apenas traduzir uma maneira, como dissemos na introdução, assistencialista e de expiação por parte do poder público ou das empresas, pelo simples contato com os desfavorecidos dos meios de produção e das oportunidades de ascensão social.
Contrariamente, os modos de produção e de interação cooperativos buscam, permeados por democracia, crítica, liberdade e auto-reflexão, a construção de uma nova determinação social, pautada pelo fim da alienação e pela busca da autodeterminação dos indivíduos, que encontrarão, no outro, não uma ameaça a ser vencida, mas uma outra possibilidade para constituição de seu próprio eu.
O caso utilizado para ilustrar as mudanças necessárias para a construção de tal transformação traz inúmeros conteúdos que podem ser analisados de diferentes formas. Escolhemos o depoimento individual para exemplificar as diversas mudanças culturais, sociais, individuais, administrativas, entre outras, por entender que o objeto estudo forma-se por uma constelação de fatores inter-relacionados.
 De fato, há grandes dificuldades encontradas na cooperativa, mas o que se procura é manter a autonomia e a liberdade dos cooperados, tendo em vista a igualdade e a solidariedade entre os mesmos, de modo que cada um possa defender os direitos uns dos outros para construir relações de trabalho mais humanas.

Bibliografia

 ARENDT, H. (1981). Condição Humana. Forense Universitária, Salamandra e UdUSP, 1981
CANDIDO, A. ´As formas de solidariedade´. In: O lúdico na Cultura Solidária. Oliveira, P.S. (Org.), São Paulo, Hucitec, 2002.
FRIEDMANN, G. ´O lazer e a civilização tecnicista´. In: O lúdico na Cultura Solidária. Oliveira, P.S. (Org.), São Paulo, Hucitec, 2002.
HORKHEIMER, M. e ADORNO, T. W. ´Conceito de Esclarecimento´. In: Dialética do esclarecimento. 2ª ed. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1985.
LEWIN, K. ´Conduta, conhecimento e aceitação de novos valores’. In: O lúdico na Cultura Solidária. Oliveira, P.S. (Org.), São Paulo, Hucitec, 2002
MARX, K. ´A maquinaria e a indústria moderna. In: O lúdico na Cultura Solidária. Oliveira, P.S. (Org.), São Paulo, Hucitec, 2002.
MEAD, M. ‘A padronização do comportamento sexual’. In Sexo e Temperamento. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1935
MILLS, W. A nova classe média. 3ª edição, Zahar editores, 1981.
WEIL, S. ´Experiência de vida de fábrica´. In: O lúdico na Cultura Solidária. Oliveira, P.S. (Org.), São Paulo, Hucitec, 2002.
SINGER, P. ´Autogestão e Socialismo: oito hipóteses sobre a implantação do socialismo via autogestão´. In: O lúdico na Cultura Soliária. Oliveira, P.S. (Org.), São Paulo, Hucitec, 2002.
[1] Funcionários, clientes,  fornecedores, acionistas, comunidades, entre outros agentes que possuem contato direto e indireto com a empresa;


[2] Proporção de vendas comparativamente aos concorrentes.


[3] Antonio Cândido, neste excerto de As formas de Solidariedade, refere-se ao trabalho cooperativo como algo pertencente a um bairro, onde os mutirões são presentes e necessários à socialização e manutenção do modo de vida caipira. Reinterpretando o autor, contextualizei tal definição às relações de trabalho internas a uma organização;


[4]  Palavra empregada para caracterizar as cidades do interior de São Paulo, estudadas por Antonio Cândido em sua tese de doutorado;


[5] “voluntários que se apresentam em cumprimento de promessas”. Cândido (1960)

(*) Francisco de Assis Ramalho de Souza – Cooperativa do Sabor.


[6] Após a apresentação e análise do depoimento de Assis, veremos que a utilização do pretérito se mostra mais próximo à atual dinâmica de trabalho da cooperativa.


[7] A remuneração é um dos grandes desafios enfrentados na transição da empresa de relações capitalistas (competitivas) para as cooperativas. Logo, quando se compara o ganho dos cooperados com outros profissionais, deve-se ir além dos retornos salariais, ou seja, os retornos intangíveis (qualidade das relações pessoais, participação nas decisões da cooperativa, autonomia nas atividades executadas, extinção das hierarquias formais etc.) são igualmente importantes nessa analogia.


[8} Notas da aula “Cultura Solidária em Perspectiva: dimensões lúdicas das interações sociais”, ministrada pelo Prof. Dr. Paulo de Salles Oliveira, no curso de pós-graduação do Instituto de Psicologia da USP.

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CULINÁRIA FÁCIL
BOLO DE CARNE COM LEGUMES...

Ingredientes

3 colheres (sopa) Azeite de Oliva Espanhol
1/2 kg patinho picado

1 cebola média picada
1 colher (chá) especiarias em pó (canela, pimenta-do-reino e cardamomo)
1 abobrinha média picada
1 bulbo pequeno de erva-doce picado
1 pimentão vermelho médio em tiras finas
1/2 maço pequeno Folhas de ervas frescas (salsinha e manjericão) picadas
Sal a gosto

PREPARO
1
Coloque no copo do processador 1 colher (sopa) de azeite de oliva, a carne, a cebola, as especiarias e o sal. Bata até obter uma massa e reserve.

2


Aqueça em uma panela 1 colher (sopa) de azeite de oliva. Junte a abobrinha, a erva-doce e o pimentão.

3


Refogue, salteando de vez em quando, por 5 minutos ou até os legumes ficarem al dente. No final, junte as ervas e tempere com sal. Retire do fogo.

4


Com 2 colheres (chá) de azeite de oliva, unte uma assadeira para pão de fôrma (capacidade para 1 litro), forre o fundo e as laterais com parte da massa. Arrume o recheio e cubra com a massa restante.

5


Leve ao forno preaquecido em temperatura média (180ºC) por 25 minutos ou até a carne ficar cozida. Retire do forno.

6


Montagem: ao amornar, desenforme o bolo, corte em fatias, arrume nos pratos e sirva com salada de folhas. Decore com vinagrete de abobrinha com pimentão vermelho misturado com o azeite de oliva restante.
  BANANA FLAMBADA


  • 1 colher (chá) de manteiga (5 gramas)
  • 1 colher (chá) de conhaque (5 ml)
  • 1 colher (chá) de contreau
  • 2 colher (sopa) de açúcar
  • 1 copo e meio de suco de laranja
  • 1 pedaço de casca de limão
  • 1 pedaço de casca de laranja
  • 2 bolas de sorvete de creme
  • 2 bananas médias
Modo de Preparo
  • Esquentar a frigideira, colocar a manteiga, as cascas de limão e laranja. Dê uma mexidinha. Depois colocar as bananas e o conhaque para flambar. Acrescentar o suco, o açúcar e misturar levemente sem amassar as bananas. Dê umas furadinhas com um garfo. Deixar cozinhar por mais ou menos 3 minutos de cada lado. Quando a calda começar a engrossar, verificar se a banana está cozida. Colocar o contreau. Arrume as bananas ao redor de duas bolas de sorvete e jogar a calda por cima. Servir imediatamente.

    MENSAGEM...

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